Parafilias - Uma Explicação da Psicologia Comportamental

Houve um tempo em que se acreditava que o ato sexual deveria se restringir ao objetivo da procriação. Naquela época, o sexo teria de ser praticado entre dois adultos (vivos), um homem e uma mulher (casados) e com o intuito exclusivo de gerar filhos. O mais assustador é que tudo o que fugisse a esse padrão era considerado doença ou grave transtorno de conduta. Para se ter ideia, até o prazer sexual, especialmente para a mulher, era rechaçado. Felizmente, os estudos e a compreensão sobre a dinâmica dos comportamentos sexuais humanos evoluíram muito. Hoje é possível separar o joio do trigo e traçar definições bem mais nítidas em relação aos comportamentos sexuais e as parafilias.

Hoje, pessoas e profissionais responsáveis conseguem enxergar as parafilias de outro modo. Isso significa dizer que há um olhar:
  • mais contextualizado nos valores éticos e legais da coletividade. 
  • focado na compreensão da dinâmica dos comportamentos humanos. 
  • preocupado com valorização da conjuntura sócio-histórica da humanidade. 
  • atento para as causas e consequências das parafilias, especialmente no que tange à violação de direitos, especialmente das pessoas indefesas e vulneráveis.

Seguindo esses critérios, as parafilias serão vistas em três grupos: 

      1. Não usuais:
        não violam direitos, apenas são diferentes das práticas mais convencionais
      2. Doentias:
        aquelas que são praticadas em função de uma dependência, transtornos mentais ou visam suprir lacunas emocionais e compensatórias do praticante.
      3. Criminosas:
        são as práticas abusivas, violadoras dos direitos humanos, também associadas a transtornos mentais graves, que ferem as normas éticas, morais e legais da coletividade.


necrofilia Parafilias e taras sexuais psicólogo Elídio Almeida, especialista em terapia de casal em salvador
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As parafilias podem ser explicadas de várias maneiras. O importante é que a explicação esteja embasada numa prática científica responsável e fundamentada na história de vida da pessoa que manifesta o comportamento em questão. Na psicologia comportamental, a lógica de expressões comportamentais como as parafilias começaram a ser estudadas em torno do ano de 1900, com o clássico condicionamento Pavloviano.
Ivan Petrovich Pavlov, um fisiologista russo, descobriu que poderíamos aprender novos comportamentos, semelhantes aos que são biologicamente estabelecidos (inatos). Em um experimento com cães, ele observou que os animais salivavam sempre que viam o alimento. Daí Pavlov passou a apresentar o alimento associado a uma sineta. Após algum tempo, ele usou somente a sineta e observou que os cães salivavam da mesma forma. Dessa forma, Pavlov concluiu que houve uma associação, dando a esse resultado o nome de Condicionamento Pavloviano.
A descoberta de Pavlov também poderia acontecer com seres humanos. Porém, obviamente, nossos comportamentos são bem mais complexos que os de um cão. O interessante do experimento de Pavlov é que ele marca o início do estudo e da explicação da psicologia comportamental para os fenômenos comportamentais por meio da experimentação científica. Mais à frente, outros cientistas aprimoraram a compreensão sobre essa questão.
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O segundo a trazer uma contribuição para a questão de como adquirimos novos comportamentos foi John Watson, mais ou menos 20 anos depois de Pavlov. Watson, partindo das descobertas anteriores, considerou que “se os organismos podem aprender novos reflexos, também podem aprender a sentir emoções que não estão presentes em seu repertório comportamental quando nascem“. Watson procurou confirmar isso também por meio de um experimento.
Watson se propôs a verificar se poderia ensinar um bebê a sentir medo. Primeiro ele observou que o bebê, ao ouvir um som estridente, se contraia e chorava (sentindo susto/medo). Noutro momento, ele colocou um rato albino próximo ao bebê e este demonstrou interesse pelo animal: olhou e quis tocá-lo. Watson concluiu que o bebê não tinha medo do rato. Assim, após essas constatações, o pesquisador passou a associar os dois estímulos. Ao tocar o rato, o bebê ouvia o barulho. Na fase posterior, apenas o rato era apresentado. O bebê passou a demonstrar as mesmas respostas de quando ouvia apenas o barulho. Concluiu-se que a criança havia aprendido a ter medo do rato, diferentemente do início do experimento.
Outros estudos aprimoraram a compreensão e explicação da psicologia comportamental para os fenômenos,  especialmente quando consideradas a atuação do indivíduo no contexto e as consequências que isso ocasiona aos envolvidos. Explicações mais atuais mostram que aquilo tido como bom resultados tende a ser repetido e integrado ao repertório do comportamento.
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Meu interesse em trazer esses dois episódios da explicação da psicologia comportamental foi bem específico. Eles mostram como aprendemos a desenvolver alguns comportamentos. Além disso, esses experimentos desconstroem muitas ideias preconceituosas que afirmam que determinados comportamentos são inatos.

Após essas breves explicações, estamos em condições de compreender melhor como algumas pessoas passam a ter certas emoções ou sensações sexuais e prazer.

Temos histórias diferentes. Logo, somos diferentes.

Vários estudos mostram que são as associações ocorridas em um dado momento da vida da pessoa que a levam a desenvolver determinados repertórios comportamentais. Além disso, tem o fato de sermos dotados de cognição e habilidades que nos permitem agir sobre o contexto. Dessa forma, selecionamos (consciente ou inconscientemente) ações para nosso repertório, de acordo com a satisfação ou não que aquilo nos confere. É dessa forma que temos a explicação da psicologia comportamental para o fato de algumas pessoas ficarem sexualmente excitadas com estímulos estranhos ou nada convencionais.

 
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Cada pessoa tem uma história de vida diferente, na qual carrega bagagens biológicas, culturais e da própria trajetória. Isso nos permite conceber que uma pessoa que tenha ficado sexualmente excitada no exato momento em que outro estímulo ocorria, pode ser gerado uma associação entre esses elementos. Ou seja, algo semelhante ao condicionamento visto acima. O fato de não termos controle para selecionar o que exatamente está provocando a excitação e emoção faz com que o conjunto seja apreendido.

Por isso que é tão difícil controlar as emoções. Elas são respostas reflexas: não temos controle sobre elas. Portanto, não decidimos ter excitação ou não quando estamos diante do estímulo associado a ela. Simplesmente ficamos excitados.

 

Um clássico para pensar sobre essa questão é imaginar uma pessoa que está passando por um grande episódio de excitação ao transar com alguém. Porém, nesse exato momento, ela está tocando um determinado tecido. Tocar o tecido também lhe trás uma sensação boa. Como os dois estímulos são apresentados simultaneamente, pode ser que ela passe a se sentir excitada sempre que tocar outros tecidos semelhantes. A excitação por tecidos e afins é uma parafilia chamada de Hifefilia.

Compreender os comportamentos humanos não é uma tarefa fácil. Conhecer a explicação da psicologia comportamental para as parafilias e outros comportamentos estranhos segue o mesmo modelo. No entanto, o interessante é olhar para além do comportamento manifestado. Conhecer o contextos, a história particular daquela pessoa, os estímulos e os resultados é sempre rico para análises apropriadas.


Fonte:
Elidio Almeida
Psicólogo | CRP 03/6773

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